9 de agosto de 2011

Sabedoria Tibetana

Os monges tibetanos têm uma forma sublime de encarar a paralisia do sono: aceitar o sofrimento, a angústia, o misterioso e o problemático desses episódios, como um oceano que aceita as correntes conflituosas de um rio e permanece eternamente calmo. Eles não encaram o «prazer» e a «dor» como entidades separadas - como a civilização ocidental, infelizmente, faz -, mas como duas faces da mesma moeda. A moeda permanece sempre em rotação, no confronto inevitável das forças da vida, sendo impossível permanecer, para sempre, somente com uma das faces visíveis. Dito de outro modo: o sofrimento não é uma objeção à vida, é parte integrante da mesma!

Segundo o Budismo, após a nossa morte enfrentamos demónios que tentam, de todas as formas possíveis, obter a nossa atenção para serem, por nós, encarados como reais. O morto não consegue distinguir entre a ilusão e a realidade, e por isso comete sempre o erro de tomar esses demónios - que são apenas ilusões - como entidades objetivas. Quando o faz, renasce novamente num outro corpo e perde uma grande oportunidade de se libertar deste ciclo infinito; se ao menos o morto soubesse que esses demónios não são reais, que estão apenas na sua mente, ele atingiria o Nirvana.

É exatamente por essa razão que os monges tibetanos induzem a paralisia do sono há milhares de anos: ela serve como uma espécie de "treino" para o momento decisivo - o momento da morte -, para que o monge, com a experiência adquirida, não encare os demónios como entidades objetivas. Através da paralisia do sono, através da tentativa de permanecer calmo durante esses episódios, o tibetano ganha um poder enorme de concentração e uma extraordinária habilidade para não se deixar levar por ilusões, de forma a poder atingir o Nirvana após a morte física.

Bem, a maioria de nós não somos budistas, pelo menos aqui no Ocidente, mas essa sabedoria pode ser útil para encararmos a paralisia do sono com uma maior tranquilidade. Recorde os ensinamentos dos monges tibetanos para a próxima vez que sofrer um episódio de paralisia do sono: os demónios não são reais, estão apenas na nossa mente. Não devemos ter medo do sofrimento, não devemos fugir da vida; devemos aceitar a vida tal como ela é, com calma e com a disciplina do inteleto superior. Estes são ensinamentos poderosos, que pode utilizar para a paralisia do sono e para a sua vida em geral. A vida é uma eterna rotatividade de «prazer» e «dor», de «amor» e «sofrimento», de «bem» e «mal». A vida deve ser amada tal como ela é!

A felicidade que a civilização ocidental procura é uma ilusão: para a vida, essa ideia de «felicidade eterna» é estranha. Retirar o sofrimento da vida é impossível: a vida não se pode dividir, ela permanece sempre em constante devir, numa unidade jubilante e afirmativa. O sofrimento de Heitor não significa nada, pois a vida continua a ser afirmada por Aquiles; do mesmo modo, o nosso sofrimento não significa nada, pois a vida continua a ser afirmada através de inúmeros seres. A individualização é apenas um "jogo de superfície". Por isso mesmo, não devemos ter medo da paralisia do sono (não devemos fugir da vida como fazem os pessimistas, nem a distorcer como fazem os otimistas): devemos encarar o rio conflituoso como se fossemos um oceano; na realidade, não existem rios (seres individuais), apenas existe o oceano (a vida).

2 comentários:

  1. Belo post. Ontem tive minha primeira experiência com a paralisia, senti uma presença demoniaca querendo tomar meu corpo. Já estou mais tranquilo.

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  2. Parabéns pelo post Carlos, está muito bom!

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